Cena 1: Da fronteira entre corpo e pensamento
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- 25 de fev.
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Atualizado: 14 de mar.
Algo que fica da cena performativa contemporânea de Portugal
O pensamento não é nenhum meio para o conhecimento. O pensamento abre sulcos no agro do ser. Por volta do ano de 1875, Nietzsche escreve o seguinte: "Nosso pensamento deve ter o cheiro forte de um trigal numa noite de verão". Quantos ainda possuem olfato para esse cheiro?
Martin Heidegger
Longe do terror ou de qualquer fantasia, aqui temos a imagem de uma cabeça sem corpo. Uma cabeça viva, vivendo sua vida ordinária, sem as marcas de ser mais ou menos algo que, talvez, deveria ter sido. A cabeça sem corpo não é menos nada. Sem corpo, ela existe à revelia de qualquer falta, é sem memória, sem saudade de uma completude originária, porque sendo sem corpo, por dedução, é cabeça sem história. Uma cabeça desanuviada daquele longo desfile de acontecimentos que fazem do corpo uma morada para uma identidade fixa, ainda que trêmula e insatisfeita.
A cabeça sem corpo agora caminha pelas ruas. Tranquila, tem suas tarefas, e hoje é terça-feira e ontem nada. E não falamos aqui de pernas ou braços, de como uma cabeça anda ou corre, se tropeça a cabeça – não falamos disso porque, se sabemos que quem tem boca vai à Roma, deduzimos o passeio dessa cabeça que, apesar de não ter corpo, sim, tem boca. É quando a própria ideia de corpo precisa ser revista. E como é bom, a partir de agora, olhar para aquela cabeça e dizer: sim, estamos diante de um corpo em movimento.
E aquele corpo tem uma extensão diferente, se comparado a outros corpos. Esta cabeça sustenta e fomenta alguma vida. Ela sorri, se abre, fecha-se, soa, soa e sua pensamentos. Era onde gostaríamos de chegar: nos pensamentos da cabeça. Se é que ela pensa, se é que os pensamentos são dela. Pensar seus pensamentos como gestos inevitáveis daquilo que uma cabeça é: uma cabeça. Mas sem diligência. Pensamentos não pedem licença, não precisam de rigor, não se afligem com a chuva, não tratemos, portanto, os pensamentos como se fossem feitos da mesma matéria dos nossos medos. Pensamentos existem porque vieram e se fizeram. Pensamentos não são ideias.
Disse a mãe ao filho, antes que ele saísse para a escola, que o menino estava esquecendo – de novo – a mochila sobre a cama. O menino estalou os beiços, entrou no quarto, pegou a mochila e a colocou, pesada, nas costas. A mãe, como quem diz bom dia, disse que ele só não esquecia a cabeça porque estava costurada ao corpo.
Era meio da tarde quando o diretor da escola ligou para o trabalho da mãe (uma grande imobiliária da cidade) para informar que seu filho havia cortado a cabeça num ato de protesto após uma aula de expressão corporal. – Mas como isso é possível?! – bradou a mãe ao telefone. O diretor, calmo: – Senhora, facto é que o menino está bem, mas partido. Quero dizer, a cabeça está aqui, sentada sobre minha mesa, e o menino também está aqui, sentado sobre a cadeira. A senhora quer falar com quem? – perguntou, receoso de que a questão pudesse causar demasiada impressão.

Na época em que viviam juntas, cabeça e corpo comunicavam-se de um modo que escapava à nossa compreensão do que é ser humano e/ou corpo. Se entrevistada, a cabeça talvez dissesse: – Não percebo a questão. Poderias reformular? – e, somado à ela, o corpo se mexeria, inquieto. Afinal, por que perguntar quando o que se deseja, na verdade, é afirmar?
Na aula matinal, a professora não hesitou: – Há sempre o perigo de que um poema pense demais. – e esperou que a turma reagisse. Mas a turma não reagiu, o que não quer dizer que os corpos ali presentes não estivessem gritando. Até que Helena levantou a mão: – Eu sinto, professora, que há outro perigo. Pior que pensar demais é pensar de menos. A senhora não concorda?
– E cá estamos nós, sempre a pensar, porque somos cabeças e estamos exaustas de ser expulsas do divinal reino dos corpos que já nem precisam pensar, corpos que debocham do pensamento como se isso aqui não fosse musculatura, que se movem e se dão por satisfeitos porque bom mesmo, dizem, é gesticular as mãos, numa manifestação trivial de baixíssima performance, porque corpo que é corpo só é corpo se se mexer! – disse uma cabeça à outra, ambas jogadas no chão da sala, enquanto alunas preparavam seus corpos para o início de uma aula prática. – Jamais teórica. Agora é tendência: fico sentada o dia inteiro e se tento participar sou tirada da conversa, como se pensar tivesse virado uma impropriedade, e como se uma cabeça só soubesse pensar. Você acompanha meu raciocínio? – perguntou uma cabeça à outra, que balançou a si própria, triste, mas concordante.
É com escandalosa arrogância que um ser humano separa a cabeça do corpo, como se o corpo não fosse cabeça, como se a cabeça não participasse. – Como se o arrepio que me toma o corpo não fosse aquilo que é justamente por causa dessa maquinaria que é minha maldita cabeça! – disse Roberta à terapeuta, naquela tarde chuvosa em que pulsava nela um desejo de costura mais forte do que qualquer independência.
– “Para o filósofo alemão Martin Heidegger, a separação entre cabeça e corpo não procede porque ele não pensa o ser humano em termos dualistas, como mente versus corpo. Na sua filosofia, o ser humano é um ser-no-mundo, inseparável de sua existência concreta e de suas relações. E é nesse sentido que também o pensamento não pode ser tratado como algo que ocorre isolado na ‘cabeça’, mas sim como um modo de ser que se dá no mundo, em meio às coisas e aos outros.”

Após ler o excerto acima, foi com desconforto que o professor, já descabelado, pediu a Pedro que ele se explicasse. Pedro largou o pedaço de papel no chão e respirou fundo, estavam todas sentadas no chão da sala após um extenuante treinamento físico. E o professor mirava o menino como se ele tivesse cometido um crime, não bem interessado no que ele diria e mais preparando-se, ruminante, para cortar sua fala caso fosse preciso.
– Se trouxermos isso para a questão das artes performativas, que é o nosso trabalho, acho que temos perguntas desafiadoras. – disse o menino, um bocado trêmulo. – Quais perguntas, Pedro? –, arrematou o professor. – Ora, professor, podemos perguntar: como a cena pode evitar essa divisão forçada entre pensamento e corpo? Como podemos criar práticas onde imaginar, sentir e mover sejam inseparáveis? – e a turma, então, ficou em silêncio. E Pedro não tinha respostas porque perguntar não é demandar respostas. Nem Paulo nem Paula tinham o que dizer. Hugo sequer sabia o que pensar, e ainda assim pensava, o pensamento agitado, correndo, já molhado, abrindo frestas e provocando solavancos abruptos na sala confinada que pode ser uma visão de mundo imutável. E a língua do professor, impaciente, querendo transformar palavra em resposta, resposta em faca, querendo matar a dúvida para, em seu lugar, semear o apaziguamento, como quem, mais uma vez, catequiza o outro.
– Penso que estamos a falar a mesma coisa, Pedro, ainda que eu não perceba, Pedro, por qual motivo as suas perguntas, Pedro, insistem em se distanciar um bocado daquilo que estamos, inclusive, Pedro, a treinar aqui, Pedro, ou seja, é o corpo que tem de responder, o corpo deve responder, não é a ideia, não é o teu pensamento, percebes? – ao que Pedro respondeu, irascível. – Mas pensar também é um gesto, e o corpo não é um país fora do mapa da mente, mas sim um lugar onde o pensamento acontece e se esbalda, professor, o senhor insiste em falar do corpo, mas fala através da mente, porque é uma coisa só!, e se você se ergue agora, para me provar que o movimento do corpo é algo sem relação com a mente, é mentira, é tudo mentira!, ainda estamos rivalizando corpo e mente!
E apesar das exclamações, Pedro não gritou naquela aula. Ele ergueu-se e, logo ao chegar à porta, retornou, pegou sua mochila, outra vez esquecida, colocou-a nas costas e foi direto à casa de banho. Olhou-se no espelho, balançou a cabeça, e sem hesitar, fez o que insistentemente lhe ensinaram.
O que acontece quando deixamos que o pensamento invente os pensamentos sem submetê-los à hierarquia do corpo? Talvez fosse necessário retornar à ideia de jogo. Não um jogo arbitrário ou meramente lúdico, mas um onde o corpo experimenta o pensamento sem precisar provar que pensa. Um jogo onde o gesto não se limite à execução, mas se dobre no tempo da imaginação. E se, em vez de cristalizar o pensamento, insistirmos na experiência do pensamento que sua, que se move junto ao corpo sem pretensão de controle?
Se todo ato de comunicação é um esforço corporal, que toda ação realizada em cena seja um pensamento encarnado. Se o teatro é jogo, que seja um jogo que amplifique a reflexão, que faça do gesto um desdobramento do pensamento, e do pensamento um movimento imprevisível. Pois, afinal, se o poder teme as pessoas que pensam, não será exatamente porque o pensamento insiste em mover-se?
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REFERÊNCIA
HEIDEGGER, Martin. A caminho da linguagem. Tradução Marcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis, RJ: Vozes; Bragança Paulista, SP: Editora Universitária São Francisco, 2003.
PROGRAMA DE ESCRITA
Diogo Liberano, a partir da leitura e do estudo de textos críticos da Esse texto (A competição desumana, Virar em diferentes direções e Lusophone manifesto), compôs uma reflexão buscando manifestar uma questão central da cena performativa contemporânea de Portugal. Os três textos estudados pelo autor foram atribuídos de modo aleatório, mesclando textos das três primeiras edições da revista.
Após criar o texto, Liberano e Gustavo Colombini fizeram uma leitura que gerou posteriores aprimoramentos na escrita. Por fim, juntos, os editores buscaram identificar e nomear a questão abordada, fazendo dela o título desse texto.
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