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Cena 3: Da desconfiança do que pode o teatro

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    Esse texto
  • 27 de fev.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 14 de mar.

Algo que fica da cena performativa contemporânea de Portugal



Para mim, o mais importante na tragédia é o sexto ato:

o ressuscitar dos mortos das cenas de batalha,

o ajeitar das perucas e dos trajes,

a faca arrancada do peito,

a corda tirada do pescoço,

o perfilar-se entre os vivos

de frente para o público.

[…]

Wisława Szymborska


— Desejas algo.

— Antes ter dito boa tarde.

— Aqui é sempre noite.

— Não tentarei esconder.

— Seu espanto é visível, e delicado.

— Lembrou-me uma poesia, um trecho diz que “o mais sublime é o baixar da cortina / e o que ainda se avista pela fresta: / aqui uma mão se estende para pegar as flores, / acolá outra apanha a espada caída”.

— E daí?

— Pensava no som da espada a cair.

— Aqui já muitas caíram.

— Fora daqui outras são erguidas.

— Tens as mãos enfiadas nos bolsos do casaco.

— Tens as cortinas abertas hoje.

— Elas sabem fechar.

— Meu espanto, não tentarei escondê-lo.

— São apenas impressões sobre o teatro.

— A vida em acontecimento.

— E o que mais?

— Em potência, quero dizer, a vida em potência.

— E vossa teimosia de usar as mesmas palavras.

— Incomoda-te eu dizer “a potência do teatro”?

— Você morrerá, mas eu continuarei morrendo.

— Preferes “a urgência do teatro”?

— Imagine que há alguém ali, sentado, a ver teus passos sobre esse chão de madeira. O que pensas que tal pessoa veria?

— Não sei, talvez, talvez visse a vida em potência, olha aí, o vício, eu percebo, a vida em potência não seria o que essa pessoa veria, mas ela veria algo, um ser, eu, alguém, ela veria alguém a fingir, não no sentido ruim, no sentido bom, foda-se, quero dizer, alguém a representar, foda-se, sinto que todas as palavras que digo são indevidas, não importa, veria algo vivo, percebes? A pessoa sentada na plateia a olhar para este palco veria algo vivo, percebes?

— Percebo. É mesmo na vida onde mentiras acontecem.


Os Outros - Fotografia de Estelle Valente
Os Outros - Fotografia de Estelle Valente

— Estive numa aula faz dois anos. Ou um. Faz quase dois anos, enfim, e a investigadora convidada disse uma coisa intrigante.

— Há farpas saindo das tábuas do proscénio, atenção.

— Não faz mal, ela disse: “você disse escrever para teatro, mas nunca entrou num teatro apenas para ter com ele uma conversa, não é mesmo?”.

— Imaginar um espaço como ferramenta; este sítio como um microfone.

— Entrei aqui, portanto, apenas para observar.

— Mesmo o silêncio, aqui, microfona.

— Por isso comparecer.

— Por isso, aquilo. Por aquilo, ainda hoje isto.

— Não faço um simples elogio a um simplório anacronismo.

— Simples, complexo, frio, quente, passado, futuro, tudo palavra, como antes.

— Estás a zombar de mim?

— Não aplaudimos palavras de ordem nem certezas, não seguimos tendências ou modas, aqui há sempre muitas maneiras para dizer o mesmo.

— Tenho pensado que trabalhamos tanto para fazer uma peça de teatro e, no entanto, quando estamos sobre um palco, a apresentar a tal peça, é como se não conhecêssemos o sítio onde pisamos.

— A tal peça sobre o palco, sempre a elogiar imaginações, possíveis e impossíveis, a peça tal como um modo demasiadamente humano de se livrar da responsabilidade que deveria ser desejar, ou seja, dar a ver imagens.

— Precisava de algum exemplo.

— Precisava ou precisa?

— Tens um horrível senso de humor.

— Acenderam uma fogueira, veja.

— Era cenográfica?

— Tinha fogo, imagine.

— Mas de papel? Quero dizer, não papel a queimar, pergunto se o fogo era representado com ventoinhas e papeis coloridos, a flamejar?

— E se assim fosse, não queimaria? E ao fogo nada mais é possível que não apenas queimar?

— Achei que estivéssemos a conversar.

— Não estás pronto para confiar no teatro.


Última memória - Fotografia de Estelle Valente
Última memória - Fotografia de Estelle Valente

— Outro exemplo.

— Outro exemplo?

— Outro: aquela janela, a que já não podemos ver. Pois bem, ela foi quebrada.

— Quebrada com uma pedra?

— Quebrada com um sopro?

— Isso não é mesmo uma conversa.

— Isso, ao menos, não é uma conversa entre você e outro alguém.

— Isso é uma pedra, sendo fatiada ao meio.

— Isso é um problema, sendo atravessado.

— Isso é um, ou seja, isso é um diálogo, não é um diálogo?

— És esperto.

— E velha.

— És charmosa.

— Um velho charmoso.

— Um diálogo, ou seja, um através de, um por meio de…

— Um por meio das palavras, por meio do discurso.

— Um através da razão?

— Atravessamento da razão.

— É isso que escuto.

— É o que digo.

— E é isso que penso.

— Observe que mesmo o modo como penso.

— O modo de pensar.

— Aqui dentro o pensar funciona de outro jeito, aqui dentro.

— Quisera eu morar dentro de um teatro.

— Quisera meu eu não ser apenas eu mesmo.

— Queria fazer uma pergunta.

A artista caminha, cabisbaixa, sobre o espaço vazio e com cortinas abertas.

— Se muitas janelas já foram quebradas aqui, posso ainda abrir o alçapão?

O teatro responde, de um jeito ou de outro, o teatro sempre responde.

— O alçapão: há sempre algo não dito, mesmo depois de tantas palavras. Saiba: no momento em que questionas, o teatro já cá está.


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REFERÊNCIA

SZYMBORSKA, Wisława. Poemas. Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.


 

PROGRAMA DE ESCRITA

Diogo Liberano, a partir da leitura e do estudo de textos críticos da Esse texto (Último socorro, Do fazer imaginar e Que as salas de aula tenham muitas janelas), compôs uma reflexão buscando manifestar uma questão central da cena performativa contemporânea de Portugal. Os três textos estudados pelo autor foram atribuídos de modo aleatório, mesclando textos das três primeiras edições da revista.

Após criar o texto, Liberano e Gustavo Colombini fizeram uma leitura que gerou posteriores aprimoramentos na escrita. Por fim, juntos, os editores buscaram identificar e nomear a questão abordada, fazendo dela o título desse texto.


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Revista de crítica artística

ISSN 2976-0240

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