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Cena 4: Da paixão pelo hábito da indiferença

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    Esse texto
  • 28 de fev.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 14 de mar.

Algo que fica da cena performativa contemporânea de Portugal



“A que tempo pertence um trabalho artístico?”, era com essa frase que o performer começava a sua apresentação. Depois completava: “Encenar um texto com décadas de idade torna esse texto contemporâneo? Citar o passado sem esforço algum para revirá-lo e provocá-lo, ainda assim, é uma manifestação poética?”.

Depois, ele abria um caderno e lia algumas frases aleatórias para a plateia.

A primeira frase era: “Sou uma viajante perdida no mar de informações, afogada por ondas incessantes de dados que me arrastam. Sou levada sem direção por correntes imprevisíveis de notícias e ruídos.”

A segunda era: “A tempestade de palavras me envolve, machucando minha lucidez e me impedindo de pensar.”

A terceira era: “As questões deste momento parecem vastas, e as vozes discordantes tornam difícil ouvir qualquer princípio de verdade. Tento escapar das armadilhas das opiniões, mas sua inundação me arrasta de volta, impedindo qualquer fiapo de compreensão.”

A quarta era: “Busco um sítio para descansar meus olhos, onde a paragem me permita assentar minha mente, mas sinto-me cansada, e não é simplesmente um cansaço.”

A quinta era: “Todo dia de manhã, eu desembarco num país estrangeiro. A língua é familiar, mas desconheço as pessoas, os assuntos. Queria voltar para o meu país um dia. Se eu lembrasse qual é.”

A sexta era: “…”


    G.O.L.P. - Fotografia de Maglio Pérez
G.O.L.P. - Fotografia de Maglio Pérez

Em seguida, o performer pergunta: “Pode um artista hoje em dia dar-se o direito de não se preocupar com as reverberações que a sua criação artística produz na época em que está? Em que medida ao dar-se esse direito, isso não se tornaria um profundo e autoritário exercício de indiferença?”

“Indiferença a quê?”, alguém da plateia levanta-se e diz. Ouvem-se alguns instantes de silêncio. Depois a mesma pessoa volta a levantar-se e diz: “Não sou alguém da plateia”. E continua: “Tenho um nome, uma história e muitas opiniões. E o performer retruca: “Mas ninguém aqui chamou-lhe de ‘alguém da plateia’”. Peço desculpas, fui eu que chamei. “Indiferença a você”, o performer continua. “Veja: um exemplo da indiferença de um artista pode ser observado quando ele insere no próprio trabalho que faz uma crítica à natureza alienante de seu próprio trabalho. Ao se tornar o foco de suas próprias piadas, o artista parece buscar proteção contra críticas externas, antecipando-as.”

A plateia ri. A plateia para de rir. A plateia faz silêncio. A plateia volta a rir do seu próprio silêncio, depois para de rir novamente. A plateia, então, cai no sono. Dorme por alguns minutos e depois acorda. A plateia está séria.

“É isso que está a se passar aqui!”, alguém da plateia levanta-se e diz. Alguém com nome, história e opiniões. “Isso que está a se passar aqui diante de nós pode ser visto como uma forma de você, dito artista, esquivar-se de suas responsabilidades! Suas responsabilidades de artista!”. O performer olha em silêncio. “Faça-nos a pergunta!”, a plateia grita. “Que pergunta?”, o performer responde. “Você sabe qual pergunta!!!”, a plateia retruca. O performer, então, respira fundo e acata o pedido: “Ok! Quais são as minhas responsabilidades como artista?”. A plateia fica em silêncio. Todos devem estar a pensar: “Mas em que época estamos?”.

Performer e plateia, então, encaram-se em um longo silêncio, por um longo tempo. Nenhum telemóvel toca, nenhuma garganta tosse. Então, começam a chorar juntos por alguns minutos. Em seguida, caem todos na gargalhada diante daquela situação. E, então, voltam a ficar sérios. Levantam-se, abraçam-se e despedem-se.


As Bruxas de Salém - Fotografia de TUNA/TNSJ
As Bruxas de Salém - Fotografia de TUNA/TNSJ

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PROGRAMA DE ESCRITA

Gustavo Colombini, a partir da leitura e do estudo de textos críticos da Esse texto (O teatro como indiferença, Hashtag e Planeta melancólico), compôs uma reflexão buscando manifestar uma questão central da cena performativa contemporânea de Portugal. Os três textos estudados pelo autor foram atribuídos de modo aleatório, mesclando textos das três primeiras edições da revista.

Após criar o texto, Colombini e Diogo Liberano fizeram uma leitura que gerou posteriores aprimoramentos na escrita. Por fim, juntos, os editores buscaram identificar e nomear a questão abordada, fazendo dela o título desse texto.


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Revista de crítica artística

ISSN 2976-0240

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