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O singelo supérfluo

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    Esse texto
  • 3 de mai. de 2023
  • 7 min de leitura

Atualizado: 1 de jul. de 2024

A partir de Pai para jantar, de Gaya de Medeiros e Gil Dionísio




Por algumas noites, adormeci a pensar como seria jantar o meu próprio pai. De olhos bem fechados, vaguei por imaginações inauditas, até que comecei a indagar-me se haveria no pai algo efetivamente prazeroso de ser saboreado. Haveria na língua do pai alguma palavra que me possibilitasse? Haveria na sua musculatura alguma força que de pé me mantivesse? Da sua carcaça, haveria a possibilidade de forjar algum abrigo ou barco? Por sucessivas noites, deitei-me na cama como quem se senta diante de uma mesa para jantar, mas acordei sempre com fome.


Suspeitei, assim, que talvez deva existir algum tipo de nutrição humana que não diga respeito a destruir ou se vingar daqueles que possam ter sido os responsáveis por alguma dor minha. Uma nutrição outra que, talvez, ultrapasse a punição que poderia ser aplicada àqueles que participaram da minha vida de um modo alienante e opressor. Essa nutrição, sem dúvida outra, demandaria ações e gestos capazes de inscrever neste mundo tudo aquilo que me foi impedido: criação e expressão.


É neste cenário, deitado na mesa e disponível aos cortes, que o pai começa a soar-me um tanto insípido, desprovido de sabor, relevo ou relevância. Por cultura e repetição, a ordem do pai acostumou-se a bloquear a minha ação e o meu pensamento; a ordem do pai bloqueou qualquer processo de singularização e impôs-me modos de ser e estar, trabalhar e falar, amar e foder; o pai – mesmo à distância – fabricou a minha relação com a natureza, os factos, o corpo e o movimento. E é a partir desse aprendizado que alguém poderia ter sido impedida de continuar a viver uma vida suportável.



Em Pai para jantar, espetáculo com conceção da artista Gaya de Medeiros, com criação, textos e performance desta e de Gil Dionísio, o pai parece ser um pré-texto para que outros textos sejam escritos. Na arena quadrangular da performance, rodeadas por espectadoras posicionadas muito próximas ao jogo artístico, Gaya e Gil despem-se de suas roupas como se servissem uma entrada antes da refeição principal. Tal entrada é devidamente o colocar do problema ante os nossos olhos, afinal, gastaremos a nossa energia a tentar ver os pênis que ali já são expostos ou haveria algo mais importante de ser notado que não o ensimesmado falo?


O falo e o falar são expostos através dos corpos em performance, mas a presença do falo não pressupõe que falar seja uma continuação do mesmo. Neste trabalho, mais do que celebrar o falo, a ação de falar parece mesmo é querer fatiá-lo e ultrapassá-lo. No espaço da cena há uma mesa, pequenos bancos, o mobiliário mais singelo e objetivo para o jantar. No entanto, o prato em si é o pai que, mesmo desmaterializado, está esparramado dentro de mim como uma linfa capaz de impregnar o meu corpo e adulterar cada ação que faço. Eis a operação desta performance: as artistas sabem que o pai está vivíssimo em nós, espectadoras, e que mencioná-lo na cena é torná-lo presente.


Porém, mais importante que a proximidade quase tátil do pai, é o facto de que, durante toda a performance, além das duas artistas em cena, há também a presença física de uma espectadora. A essa espectadora é oferecida a possibilidade de mais ouvir do que falar, mais contemplar do que afirmar, de fazer pequenos e singelos deslocamentos como deitar sob a mesa e estar no mundo como quem aprende que o mundo é mais vasto do que o seu próprio querer; essa espectadora é o pai, na medida em que o pai é aquele quem precisa, urgentemente, aprender a desaprender.


A espectadora, dentro do jogo da cena, antes de ser espectadora é somente uma pessoa. Ela, agora, sou eu, metonímia carnalizada e lançada ao jogo que, durante a performance, faz-me perguntar: e se tu estivesses ali, o que farias? Saberias a hora de falar ou silenciarias? Sentirias receio de atrapalhar a peça? Aceitarias entrar nesse jogo? E com que doçura, com que disponibilidade? É assim que o jantar começa: a artista Gaya de Medeiros convida alguém do público para sentar-se no centro do espaço e acompanhar a performance por outra perspectiva. Penso no inacabamento constitutivo de algum fazer artístico contemporâneo, afinal, em Pai para jantar, há textos sendo escritos pela primeira vez: o texto já escrito previamente, o texto do acontecimento, o texto das reações da espectadora; o texto que costura esses textos.


Há mistério no esforço que precisa ser feito para firmar uma existência neste mundo que não seja a do pai. Porém, tal esforço pode dar corpo e contorno ao que impede tal existência de existir em vez de celebrar a sua vitalidade. O que brilha nesta performance é que ela não busca fatiar o pai com a faca. É a fala que atravessa a carcaça do homem e revela que, a despeito dele e da sua orgulhosa dureza, há mais vidas e histórias do que as poucas que foram pelo pai autorizadas.



A autoridade. Como sabê-la? Trata-se de uma voz geral dedicada a impor, calar e corrigir? De um gesto que deturpa a paisagem do mundo a fim de privilegiar os seus interesses? Uma ação que induz sentidos em vez de convidar-nos a descobri-los? Penso em autoridade por suspeitar que, a despeito da roupa que ela veste, uma autoridade é sempre a autoridade. É em autoridade que penso ao ser convidado para jantar o pai, pois, de um modo análogo, jantar o pai é jantar uma série de autoridades: janta-se o pai, o homem gênero masculino, o sentido, a autoria, janta-se a obra de arte, a separação arte e vida e, em especial, janta-se a invariabilidade das ideias que fazemos das coisas, afinal, foste assistir a um espetáculo de dança para ver dançarinas a bailar?


Ao contar uma das primeiras histórias nesse espetáculo, Gaya fala-nos de uma mulher que sobreviveu, bem viva mesmo, diante de um homem ou monstro ou coisa parecida (um minotauro, talvez). Ao contar essa história, Gaya dá um pequeno salto e, ao descrever tal mulher ou bailarina, a performer inscreve o seu único passo de dança e é diante dele onde estou agora, sequestrado, à procura de um gesto capaz de resolver o meu estranho embaraço. (Pergunto-me se é o pai quem, em mim, agora fala. Será que eu falo e desejo através do pai? Não me sinto dominado por ele, mas por que será que me sinto, de algum modo, tão desnorteado? O que esse trabalho modifica em relação àquilo que os olhos do pai catequizaram-me a ver?).


Os gestos verbais e cinéticos desta performance são assertivos. A nudez das performers, por exemplo, não é arma contra o pai, antes, é a afirmação de quem se é, a despeito do fulano. Lembro-me do dia em que fui até a casa do meu pai contar para ele que eu era gay. Após um diálogo muito silencioso, com lágrimas e raiva a saltar dos olhos, meu pai disse-me que eu poderia ser quem eu quisesse desde que fosse fora de casa, pois ali, na casa dele, eu continuaria sendo apenas o seu filho. Lembro-me da agilidade com a qual meu pai separou o filho que eu era de quem ele gostaria que eu fosse. Disse-lhe assim: pois então hoje é a última vez em que nos vemos, pai, pois eu não posso ser dois, eu sou um, e este um é tanto o seu filho como um homem gay. E fiz mais, disse-lhe: vou para a minha casa e, caso o senhor não me telefone até amanhã cedo para dizer que sou bem-vindo aqui do jeito como sou e com quem eu quiser, hoje é mesmo a última vez em que nos veremos.


Por algumas noites, adormeci a pensar como seria jantar o meu próprio pai. Numa manhã, acordei tomado por uma propositiva resposta: contar histórias. Contar histórias como quem suspeita que contá-las é semear no mundo as vidas que teimam em ser desafiadas a desaparecer. Eis o singelo supérfluo que Gaya de Medeiros propõe-nos: existir e contar histórias são ações quase-idênticas. Mas não se trata de contar histórias que doeram e/ou façam doer; trata-se de contar aventuras específicas – fundar uma nova mitologia – que façam um punhado de vidas continuarem e que, ao serem contadas, consigam transformar a maquinaria desse mundo.


É mais ou menos o que sinto quando estou/me vejo envolvido pelas histórias diversas que me foram contadas em Pai para jantar, ainda que não consiga bem me lembrar delas. São histórias mesmo ou apenas um falatório? Elas misturam-se umas às outras sem pedirem licença, não parecem apaixonadas pelo mito do herói; elas compõem-se por relatos familiares atrelados a espantos delicados, talvez por serem muitas, diversas e também fatiadas; ora são escritas por cantos sonoros e mesmo incompreensíveis, talvez o especial mesmo era estar ali, a contar e ouvir histórias, a despeito da contagem do tempo.


Sentado numa cadeira, entrevejo histórias que se fazem lembrar em mim. Onde a dança está? Mais que celebrar violências, jantar o pai é desafiar a insistência da sua presença. Tal pergunta, rabugenta, esconde ainda um resto de pai em mim. Ser pai é um papel social que pode ser interpretado por qualquer uma de nós. Não poderia a dança fazer dançar os verbos mais do que os músculos do corpo? Não poderia o teatro ficar mudo de palavras e inscrever-se apenas por silêncios e imagens? O pai existe para além de corpos, gêneros ou nomes. A autoridade, substantivo feminino. Que tipo de procura seria essa?

 

PROGRAMA DE ESCRITA

Diogo Liberano assistiu ao espetáculo Pai para jantar no dia 20 de abril de 2023, às 19h30, no Teatro Campo Alegre (Porto) – como espetáculo integrante da programação da 7ª edição do Festival Dias da Dança (DDD); de 21 a 30 de abril, escreveu uma primeira versão desse texto que, de 1 a 2 de maio, foi comentado por Gustavo Colombini; por fim, na quarta-feira, 3 de maio, os dois finalizaram juntos esse texto.


 

ESSE “OUTRO” TEXTO

Durante a composição desse texto, lembramo-nos do livro Ética bixa de Paco Vidarte.


 

Pai para jantar

Criação, textos e performance: Gaya de Medeiros e Gil Dionísio | Conceção: Gaya de Medeiros | Música: Gil Dionísio | Figurino: Raphael Fraga | Espaço cénico e iluminação: Tiago Cadete | Assistência dramatúrgica: Alex Cassal | Gestão financeira: Marta Moreira | Produção: Carol Goulart


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ISSN 2976-0240

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